Sunday, August 03, 2008

 

Borges e eu

O outro, o que chamam Borges, é aquele a quem as coisas acontecem.
Caminho pelas ruas de Buenos Aires e paro por um momento,
talvez algo mecânico, para olhar para o arco de corredor
e para a ferraria elaborada no portal;
sei de Borges pela correspondência,
vejo o seu nome numa lista de professores
ou num dicionário biográfico.

Gosto de relógios de areia, mapas, tipografia do século dezoito,
o gosto do café e a prosa de Stevenson;
ele compartilha dessas preferências,
mas de um jeito vaidoso que as transforma
em atributos de um actor.
Seria um exagero dizer
que o nosso relacionamento é hostil;
eu vivo, me permito continuar vivendo,
de forma que Borges possa produzir sua literatura,
e sua literatura me justifica.

Não é nenhum esforço para mim confessar
que ele tenha atingido algumas páginas de valor,
mas estas páginas não poderiam me salvar,
talvez porque o que é bom não pertença a ninguém, nem mesmo a ele,
mais provavelmente à língua e à tradição.

Além disso, meu destino é perecer, definitivamente,
e somente algum instante de mim pode sobreviver nele.
Pouco a pouco, dou tudo a ele,
apesar de totalmente consciente de seu costume perverso
de falsificar e aumentar as coisas.
Spinoza sabia que todas as coisas
anseiam persistir sendo o que são;
a pedra quer eternamente ser uma pedra e o tigre um tigre.

Permanecerei em Borges,
não em mim mesmo (se é verdade que sou alguém),
mas reconheço menos de mim em seus próprios livros
do que em outros muitos
ou no hábil dedilhar de um violão.
Anos atrás tentei me libertar dele
e fui das mitologias aos subúrbios, aos jogos,
como se dispusesse de tempo infinito,
mas esses jogos agora pertencem a Borges e eu tudo perco.
E tudo pertence ao esquecimento, ou a ele...
Não sei qual de nós escreveu esta página.

Jorge Luis Borges

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